Enquanto discursos oficiais seguem prometendo melhorias “em andamento”, trabalhadores, estudantes e pacientes que dependem diariamente das vans entre Santo Eduardo e Campos dos Goytacazes convivem com uma realidade muito menos confortável do que as notas institucionais costumam sugerir. A rotina de quem utiliza o transporte alternativo no interior do município há muito deixou de ser apenas cansativa. Tornou-se perigosa.
Muito antes do grave acidente registrado ontem, usuários já denunciavam superlotação, calor extremo dentro dos veículos, motoristas submetidos a jornadas desgastantes, excesso de velocidade e uma aparente falta de manutenção em parte da frota. Reclamações recorrentes. Antigas. Ignoradas.
O acidente apenas arrancou o véu de um problema que já vinha sendo empurrado “com a barriga” há anos.
Para quem depende do transporte público no interior campista, sair de casa deixou de significar apenas ir ao trabalho. Significa enfrentar uma espécie de loteria diária. Não há previsibilidade, conforto ou segurança. Há apenas necessidade. E é justamente sobre essa necessidade que o sistema se sustenta: pessoas que não têm outra opção continuam entrando em veículos lotados porque precisam trabalhar, estudar, sobreviver.
Em Campos dos Goytacazes, a precarização dos serviços públicos parece ter se tornado parte da paisagem urbana. Buracos são maquiados, obras começam sem terminar, promessas são recicladas em coletivas de imprensa e problemas históricos recebem soluções temporárias que duram exatamente até o próximo período eleitoral ou até a próxima tragédia.
Enquanto isso, o cidadão continua pagando a conta, literalmente e emocionalmente.
O mais preocupante é que o problema do transporte não está isolado. Moradores também reclamam da situação da saúde pública, da infraestrutura em bairros afastados, da dificuldade de acesso a serviços básicos no interior do município e da sensação crescente de abandono administrativo fora do eixo central da cidade. Existe hoje um sentimento coletivo de que boa parte do interior de Campos sobrevive à margem das prioridades políticas.
E quando acidentes graves acontecem, surgem as notas de solidariedade, as promessas de investigação e os discursos protocolares. O roteiro já é conhecido pela população.
O que ainda não apareceu foi a solução.
O prefeito Frederico Paes e os órgãos competentes precisam compreender que transporte público não é favor, propaganda ou peça eleitoral. É dignidade. É segurança. É política pública básica. Não é aceitável que trabalhadores enfrentem diariamente veículos superlotados e sem condições adequadas enquanto a gestão municipal mantém um discurso de normalidade administrativa.
A população já não cobra mais perfeição. Cobra respeito.
Porque quando cidadãos precisam escolher entre faltar ao trabalho ou entrar em um veículo sem segurança adequada, o problema deixou de ser administrativo há muito tempo. Passou a ser humano.
E talvez seja exatamente isso que mais incomode agora: o fato de que o drama vivido pelos usuários finalmente deixou de caber apenas dentro das vans.